O Inglês Americanizado: as origens de “O.K.”

De todas as palavras criadas pelos americanos, nenhuma supera a popularidade internacional de O.K. O mais curioso é que esse americanismo tão versátil tem causado a maior perplexidade quanto às suas origens. Para começar, há várias formas de escrevê-lo: OK, O.K., ok, okay, okeh, okey, e até oak e oke.

As funções gramaticais de O.K. também atestam a sua versatilidade. Num momento ele é um adjetivo que significa bom (He made an O.K. decision = Tomou um boa decisão), no outro significa aceitávelmais ou menos (The play is O.K., but I prefer the book = A peça é aceitável mas prefiro o livro). Quando você menos espera, O.K. vira verbo (Can you O.K. this for me, please? = Pode aprovar isto para mim, por favor?) ou substantivo (He gave his O.K. = Ele deu sua aprovação), ou interjeição (O.K., I hear you! = ‘Tá bom, estou ouvindo!) ou advérbio (He did O.K. = Ele deu-se bem). Mas tem mais. Existem nuanças de significado que dependem da entonação. Pode ser uma simples concordância (“Shall we go?” — “O.K.” = “Vamos?” — “O.K.”) ou expressão de grande entusiasmo (“O.K.!” = “Maravilha!”), como pode ser uma expressão sem significado especial (“O.K., let’s begin” = Tudo bem, vamos começar). O.K. também já deu filhote, embora com significado mais limitado: okey-doke (ou hokey-dokey, okie-doke e outras variações) que também quer dizer simtudo bem, e, claro, O.K.

okO professor Allen Walker Read, da Universidade de Columbia, dedicou-se a investigar as origens de O.K., durante vinte anos, numa tentativa de pôr fim às controvérsias. As possíveis origens da palavra eram tantas e tão variadas que algumas beiravam a idiotice. Exemplos: O.K. seria a abreviação da expressão only kissing (apenas beijando); a expressão teria sido usada pelo quase analfabeto presidente Andrew Jackson, que aparece nas cédulas de 20 dólares, que escreviaO.K. nos documentos para indicar sua aprovação quando estava tudo correto – para ele, a expressão por extenso seria oll korrect em vez de all correct. Outros diziam que O.K. vinha do nome de um biscoito muito popular na época, Orrin Kendall crackers, ou que vinha de okeh, da língua indígena choctaw, ou que era derivada da alcunha Old Kinderhook, do presidente Martin Van Buren, candidato à reeleição em 1840.

Graças ao professor Read, sabemos hoje que O.K. apareceu pela primeira vez na imprensa no jornal Boston Morning Post, no dia 23 de Março de 1839. Naquela época era moda entre os jovens grã-finos de Boston e Nova Iorque fazerem abreviaturas jocosas baseadas nos erros dos menos letrados. O.W. era a abreviatura de oll wright (em vez de all right = tudo bem); K.Y. no lugar de know yuse (em vez de no use = não adianta); O.K. em vez de oll korrect (all correct = tudo certo). Provavelmente, a coisa teria morrido por ali mesmo, como é normalmente o caso quando se trata de manias desse tipo. Mas é justamente aí que entra a campanha política para a reeleição de Martin Van Buren, apelidado deOld Kinderhook (Kinderhook era a sua cidade natal no estado de Nova Iorque). O partido democrata organizou o O.K. Club para promover o seu candidato e, da noite para o dia, O.K. virou chavão, bordão, verbo, adjetivo, enfim, tudo o que ainda é hoje. Infelizmente para os democratas, o O.K. Club não era tão O.K. assim – Van Buren foi derrotado por William Harrison.

 

 

O texto acima faz parte do livro Once Upon a Time um Inglês… A história, os truques e os tiques do idioma mais falado do planeta escrito por John D. Godinho.