O Inglês Americanizado: o encontro do inglês britânico com o americano

O.K. é um perfeito exemplo da língua inglesa moldada pelos americanos para refletir o dinamismo e soltura da sociedade que estavam criando. Alguns ingleses sentiam-se ultrajados. Mas as desavenças linguísticas não passavam de trocas de desabafos e desaforos entre intelectuais dos dois lados do Atlântico. Nos dois países, o povo passava ao largo dessas briguinhas de comadres… Até o dia 6 de abril de 1917. Naquele dia, os Estados Unidos entravam na Primeira Guerra Mundial, ao lado dos ingleses, contra a Alemanha, no que seria o primeiro grande encontro, cara a cara, entre as duas grandes variedades de inglês. Nas trincheiras, mais de dois milhões de americanos lutavam ao lado de soldados ingleses. De repente, cidadãos comuns de ambos os lados tomavam conhecimento dos estranhos sons, significados e palavras um do outro. As circunstâncias, porém, eram propícias a um elevado grau de camaradagem e boa vontade, o que muitas vezes resultava em boas gargalhadas devido aos frequentes equívocos.

David Lloyd George e Thomas Woodrow Wilson

Primeiro Ministro inglês David Lloyd George e
Presidente americano Thomas Woodrow Wilson
na Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918)

O que para um inglês é um elevador, lata de lixo e biscoito (liftdustbinbiscuit), para um americano é elevatorgarbage can e cookie. Essas são apenas algumas das mais de 4 mil e tantas palavras com usos diferentes nos dois lados do Atlântico. Muitas são imediatamente reconhecidas por todos, como petrolpost,trousersholiday na Inglaterra que viraram gasolinemailpants e vacation na América. Mas ainda há um número enorme de palavras que tendem a deixar ingleses e americanos perplexos, presos nas armadilhas de um idioma em comum. No livro British English, A to Zed, Norman W. Schur descreve quase 5 mil palavras e expressões do inglês britânico para a elucidação de americanos apanhados nas malhas do próprio idioma que, por vezes, parece familiar, mas não é. Entre elas encontram-se guardanapo, querosene, corredor, loja de ferragens, camiseta e cabine telefônica, que para um inglês são serviette, paraffin, gangway, ironmonger, vest e kiosk e para um americano são napkin, kerosene, aisle, hardware store, undershirt e telephone booth.

A guerra terminou dezoito meses após a entrada dos Estados Unidos, deixando claro para todos que aquele era agora um país de primeira grandeza e, como tal, as idiossincrasias de seu idioma teriam que ser levadas em conta sempre que se tratasse da língua inglesa. Desde então o inglês americano não parou de crescer e aumentar a sua influência. Por isso, o grande fluxo de inovações no idioma nos últimos 100 anos tem sido da América para a Europa, permitindo que os ingleses, por vezes a contragosto, desfrutem as novidades mesmo mantendo a atitude de que as inovações americanas são de um inglês inferior.

 

O texto acima faz parte do livro Once Upon a Time um Inglês… A história, os truques e os tiques do idioma mais falado do planeta escrito por John D. Godinho.

 

O Inglês Americanizado: as origens de “O.K.”

De todas as palavras criadas pelos americanos, nenhuma supera a popularidade internacional de O.K. O mais curioso é que esse americanismo tão versátil tem causado a maior perplexidade quanto às suas origens. Para começar, há várias formas de escrevê-lo: OK, O.K., ok, okay, okeh, okey, e até oak e oke.

As funções gramaticais de O.K. também atestam a sua versatilidade. Num momento ele é um adjetivo que significa bom (He made an O.K. decision = Tomou um boa decisão), no outro significa aceitávelmais ou menos (The play is O.K., but I prefer the book = A peça é aceitável mas prefiro o livro). Quando você menos espera, O.K. vira verbo (Can you O.K. this for me, please? = Pode aprovar isto para mim, por favor?) ou substantivo (He gave his O.K. = Ele deu sua aprovação), ou interjeição (O.K., I hear you! = ‘Tá bom, estou ouvindo!) ou advérbio (He did O.K. = Ele deu-se bem). Mas tem mais. Existem nuanças de significado que dependem da entonação. Pode ser uma simples concordância (“Shall we go?” — “O.K.” = “Vamos?” — “O.K.”) ou expressão de grande entusiasmo (“O.K.!” = “Maravilha!”), como pode ser uma expressão sem significado especial (“O.K., let’s begin” = Tudo bem, vamos começar). O.K. também já deu filhote, embora com significado mais limitado: okey-doke (ou hokey-dokey, okie-doke e outras variações) que também quer dizer simtudo bem, e, claro, O.K.

okO professor Allen Walker Read, da Universidade de Columbia, dedicou-se a investigar as origens de O.K., durante vinte anos, numa tentativa de pôr fim às controvérsias. As possíveis origens da palavra eram tantas e tão variadas que algumas beiravam a idiotice. Exemplos: O.K. seria a abreviação da expressão only kissing (apenas beijando); a expressão teria sido usada pelo quase analfabeto presidente Andrew Jackson, que aparece nas cédulas de 20 dólares, que escreviaO.K. nos documentos para indicar sua aprovação quando estava tudo correto – para ele, a expressão por extenso seria oll korrect em vez de all correct. Outros diziam que O.K. vinha do nome de um biscoito muito popular na época, Orrin Kendall crackers, ou que vinha de okeh, da língua indígena choctaw, ou que era derivada da alcunha Old Kinderhook, do presidente Martin Van Buren, candidato à reeleição em 1840.

Graças ao professor Read, sabemos hoje que O.K. apareceu pela primeira vez na imprensa no jornal Boston Morning Post, no dia 23 de Março de 1839. Naquela época era moda entre os jovens grã-finos de Boston e Nova Iorque fazerem abreviaturas jocosas baseadas nos erros dos menos letrados. O.W. era a abreviatura de oll wright (em vez de all right = tudo bem); K.Y. no lugar de know yuse (em vez de no use = não adianta); O.K. em vez de oll korrect (all correct = tudo certo). Provavelmente, a coisa teria morrido por ali mesmo, como é normalmente o caso quando se trata de manias desse tipo. Mas é justamente aí que entra a campanha política para a reeleição de Martin Van Buren, apelidado deOld Kinderhook (Kinderhook era a sua cidade natal no estado de Nova Iorque). O partido democrata organizou o O.K. Club para promover o seu candidato e, da noite para o dia, O.K. virou chavão, bordão, verbo, adjetivo, enfim, tudo o que ainda é hoje. Infelizmente para os democratas, o O.K. Club não era tão O.K. assim – Van Buren foi derrotado por William Harrison.

 

 

O texto acima faz parte do livro Once Upon a Time um Inglês… A história, os truques e os tiques do idioma mais falado do planeta escrito por John D. Godinho.